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HPlaw · Investimento

Cap table: como montar e manter atualizado

Por Higor Paz · OAB/MG 185.223Publicado em 04.11.20268 min de leitura

Cap table (tabela de capitalização) é a tabela que mostra quem detém a empresa e em que proporção, hoje e na base totalmente diluída, isto é, contando opções, pool reservado e títulos conversíveis como se já fossem participação. Para servir numa rodada, cada linha precisa bater com um documento: contrato social ou livro de ações, contratos de opção, mútuos e acordos. A manutenção é uma rotina: a tabela muda sempre que muda o quadro de sócios ou surge um direito de participação.

Onde está o risco

O cap table costuma nascer como uma planilha feita pelo fundador e esquecida depois da primeira alteração contratual. Com o tempo, ele deixa de refletir a realidade: opções prometidas por e-mail, mútuos que ninguém modelou, uma saída de sócio que não foi registrada.

Exemplo em tese
Uma startup recebe uma proposta de investimento e envia a planilha de sócios. Na due diligence, o investidor encontra três diferenças: o contrato social registrado mostra percentuais distintos, há duas cartas prometendo participação a funcionários e um mútuo conversível que não está na tabela. A rodada fica parada até que tudo seja conciliado, e o investidor recalcula o preço por quota.

Uma tabela que não fecha gera três efeitos: atraso na rodada, renegociação de preço e desconfiança sobre o resto da documentação.

O que entra no cap table

  • Quotas ou ações emitidas. Na limitada, a quota de cada sócio consta do contrato social (Código Civil, art. 997, IV, aplicável por remissão do art. 1.054). Na S.A., a propriedade das ações nominativas se presume pela inscrição no livro de Registro de Ações Nominativas (Lei 6.404/1976, art. 31), que também registra transferências e ônus (art. 100).
  • Classes e direitos. Ações preferenciais, voto plural ou quotas com direitos distintos precisam aparecer em colunas próprias, porque o percentual econômico pode ser diferente do percentual de voto.
  • Pool de opções. Separe o que já foi outorgado (com vesting em curso) do que está apenas reservado.
  • Opções e promessas de participação. Cada contrato de opção vira uma linha, com quantidade, preço de exercício e cronograma.
  • Títulos conversíveis. Mútuo conversível, opção de subscrição e contrato de investimento-anjo não integram o capital até a conversão (Lei Complementar 182/2021, art. 5º, §§ 1º e 2º), mas entram na base totalmente diluída pela estimativa de conversão.
  • Investidor não residente. Quando há transferência relacionada a investidor não residente igual ou superior a US$ 100 mil, entre outras hipóteses, a empresa receptora deve prestar informações de investimento estrangeiro direto ao Banco Central (Resolução BCB 278/2022, arts. 17, II, e 32). Vale uma coluna de controle para isso (detalhes em Investimento estrangeiro na startup: registro no Banco Central).

Um modelo de cap table

Exemplo em tese. Fundador A com 420.000 quotas, Fundador B com 280.000 e um investidor seed com 200.000. Pool de 100.000 quotas, das quais 40.000 já outorgadas. Um mútuo de R$ 500 mil com teto de R$ 10 milhões, que, sobre a base de 1.000.000 de quotas, converteria em cerca de 50.000 quotas.

Titular

Instrumento

Emitidas

Potenciais

% emitido

% totalmente diluído

Documento

Fundador A

Quotas

420.000

—

46,67%

40,00%

Contrato social

Fundador B

Quotas

280.000

—

31,11%

26,67%

Contrato social

Investidor seed

Quotas

200.000

—

22,22%

19,05%

Alteração contratual e acordo de sócios

Equipe

Opções outorgadas

—

40.000

—

3,81%

Contratos de opção

Pool disponível

Reserva

—

60.000

—

5,71%

Ata ou acordo que criou o pool

Investidor do mútuo

Mútuo conversível

—

50.000

—

4,76%

Contrato de mútuo

Total

900.000

150.000

100%

100%

O Fundador A tem 46,67% do capital registrado, mas 40% na base que o investidor vai usar. A coluna "Documento" é a que mais ajuda na due diligence.

Como montar, passo a passo

  1. Comece pelo registro oficial. Use o contrato social consolidado mais recente ou o livro de ações. A tabela parte do que está registrado, não da memória.
  2. Liste todas as promessas. Procure em e-mails, propostas de emprego e contratos qualquer menção a participação, opção ou bônus ligado ao valor da empresa.
  3. Inclua os títulos conversíveis. Anote valor, teto, desconto, vencimento e evento de conversão de cada um.
  4. Calcule a base totalmente diluída. Some emitidas e potenciais e calcule os dois percentuais.
  5. Vincule cada linha a um documento. Arquive o documento numa pasta com o mesmo nome da linha.
  6. Separe voto de economia. Se houver classes, crie colunas para direito de voto e para direito econômico.
  7. Simule a próxima rodada. Faça uma aba com a rodada projetada, para ver o efeito antes de negociar.
  8. Defina um responsável. Uma pessoa atualiza a tabela, e outra confere a cada evento.

Quando atualizar

Evento

O que muda na tabela

Documento de suporte

Entrada ou saída de sócio

Linhas e percentuais emitidos

Alteração contratual registrada ou termo no livro

Aumento de capital

Total emitido e preço por quota

Ata ou alteração contratual

Outorga de opção

Potenciais e pool disponível

Contrato de opção

Fim de um período de vesting

Opções conquistadas

Controle de vesting

Exercício de opção

Potenciais viram emitidas

Alteração contratual ou livro de ações

Assinatura de mútuo ou opção de subscrição

Potenciais e base diluída

Contrato do instrumento

Conversão

Potenciais viram emitidas

Alteração contratual ou livro de ações

Aporte de não residente

Coluna de controle do Banco Central

Comprovante da prestação de informações

Uma boa prática é revisar a tabela também em datas fixas, como no fechamento de cada trimestre, mesmo sem eventos.

Erros comuns que travam rodadas

  • Planilha diferente do contrato social. O investidor confia no registro, não na planilha. Concilie os dois antes de enviar qualquer número.
  • Promessas fora da tabela. Uma carta prometendo 2% a um funcionário é um direito potencial. Formalize ou encerre a promessa por escrito e registre na tabela.
  • Mútuos não modelados. Teto e desconto podem converter em mais participação do que se imagina. Simule a conversão em cada cenário de rodada.
  • Cessões não averbadas. Na limitada, a cessão de quotas só produz efeitos perante a sociedade e terceiros a partir da averbação do instrumento (Código Civil, art. 1.057, parágrafo único). Registre cada cessão.
  • Pool sem documento. Reservar quotas "de boca" não cria pool. A reserva precisa de deliberação ou acordo escrito.
  • Uma única versão sem histórico. Sem versões datadas, ninguém sabe qual tabela valia em cada rodada. Salve uma versão por evento.

Checklist

Perguntas frequentes

Cap table é documento obrigatório? Não há lei que exija uma planilha chamada cap table. O que a lei exige é o registro das quotas no contrato social ou das ações nos livros da companhia. O cap table organiza essas informações junto com os direitos potenciais.

Mútuo conversível entra no cap table antes da conversão? Entra como participação potencial, na base totalmente diluída. Juridicamente, o investidor só se torna sócio após a conversão formal.

Qual ferramenta usar: planilha ou software? Uma planilha bem organizada funciona nas fases iniciais. Com muitos titulares, opções e rodadas, um software próprio reduz erros. Em qualquer caso, o que vale é a conciliação com os documentos.

Phantom shares entram no cap table? Não são participação societária, mas convém registrá-las numa aba separada, porque geram pagamento em eventos de liquidez e o investidor vai perguntar por elas. A diferença entre os modelos está em Stock options ou phantom shares.

Quem deve ter acesso ao cap table? Em geral, fundadores, administração e investidores com direito a informação pelo acordo de sócios. Defina por escrito quem recebe e com que frequência.

Próximo passo

Com o cap table conciliado, estime o valor da empresa no Valuation de startups e use o resultado para simular a próxima rodada na aba de projeção. O guia Data room da startup mostra como organizar os documentos que sustentam cada linha. Se a tabela tem pendências antes de uma rodada, a Sessão Estratégica é uma conversa com escopo definido para priorizar o que regularizar. Veja também investimento em startups e o que o comprador pede numa due diligence.

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Fontes

  • Código Civil (Lei 10.406/2002), arts. 997, IV, 1.054 e 1.057, parágrafo único (texto atualizado no portal da Câmara dos Deputados).
  • Lei 6.404/1976, arts. 31 e 100.
  • Lei Complementar 182/2021, art. 5º, §§ 1º e 2º.
  • Resolução BCB 278/2022, arts. 17, II, e 32 (texto vigente no portal do Banco Central).

Conteúdo informativo. Não substitui consulta a um advogado.