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HPlaw · Startups

Como abrir uma startup: do CNPJ ao acordo de sócios

Por Higor Paz · OAB/MG 185.223Publicado em 04.11.20268 min de leitura

Formalizar uma startup vai além de abrir o CNPJ. A ordem que reduz retrabalho é: escolher o tipo societário, escrever um contrato social que reflita o negócio, assinar o acordo de fundadores com vesting, proteger a marca, colocar o código em nome da empresa, organizar os primeiros contratos e cumprir o básico da LGPD. Feito nessa sequência, cada passo apoia o próximo e a empresa chega à primeira rodada sem pendências.

Por que a ordem importa

O erro mais comum não é deixar de fazer algo. É fazer na ordem errada. A empresa nasce com um contrato social de modelo, os fundadores começam a programar e a vender, e o acordo entre eles fica para depois. Quando chega o primeiro investidor, ele pede o que deveria ter sido feito no início.

Exemplo em tese
Três amigos abrem uma limitada com o contrato padrão da contabilidade, em partes iguais. Um deles escreveu sozinho a primeira versão do software, antes da empresa existir, e nunca assinou nada transferindo esse código. Um ano depois, ele decide sair. A empresa descobre que não tem como provar que é dona da base do próprio produto, e o fundador que saiu continua com um terço das quotas. A solução custa mais tempo e dinheiro do que teria custado na abertura.

Como funciona cada peça

  • Tipo societário. Define como os sócios se organizam, como entram investidores e como a empresa é administrada. Para startups, as opções usuais são a sociedade limitada e a sociedade anônima fechada.
  • Contrato social ou estatuto. É a regra pública da empresa, registrada na Junta Comercial: objeto, capital, administração, quóruns e saída de sócios.
  • Enquadramento como startup. O Marco Legal das Startups permite o tratamento especial de fomento para empresas com receita bruta de até R$ 16 milhões no ano anterior e até 10 anos de CNPJ, desde que declarem no ato constitutivo o uso de modelo de negócio inovador ou estejam no Inova Simples. O que isso muda na prática está em Marco Legal das Startups: o que muda na prática.
  • Acordo de fundadores. Documento privado entre os sócios, com vesting, dedicação, saída, não concorrência e decisões importantes.
  • Marca. O nome do produto precisa ser buscado e depositado no INPI. Nome empresarial e domínio não dão exclusividade sobre a marca.
  • Propriedade intelectual do código. O que foi criado pelos fundadores, antes e depois da abertura, e por freelancers precisa estar formalmente cedido à empresa.
  • Contratos e LGPD. Termos de uso, política de privacidade, contratos com clientes e prestadores e o mapeamento básico dos dados pessoais tratados.

Limitada ou sociedade anônima?

Critério

Sociedade limitada

Sociedade anônima fechada

Custo e burocracia iniciais

Menores

Maiores (estatuto, assembleias, livros)

Número de sócios

Pode ter um único sócio

Em regra, ao menos dois acionistas

Diretoria

Administradores no contrato social

Pode ter diretoria de um só membro desde o Marco Legal

Planos de opção de compra

Montados por contrato, com mais cuidado

Previstos na lei, dentro do capital autorizado

Entrada de investidores

Funciona bem nas fases iniciais, muitas vezes por instrumentos conversíveis

Mais familiar para fundos e rodadas maiores

Publicações legais

Regras mais simples

Companhia fechada com receita de até R$ 78 milhões pode publicar de forma eletrônica

Quando costuma fazer sentido

Validação e primeiras rodadas

Rodadas institucionais, planos de incentivo amplos

Muitas startups começam como limitada e se transformam em S.A. quando a rodada exige. Escolher a limitada no início não é erro, desde que o contrato social já preveja as regras que o investidor vai pedir.

Passo a passo para formalizar

  1. Defina sócios, papéis e participação. Quem entra, com quanto, com que dedicação e em que função. Escreva antes de abrir a empresa.
  2. Escolha o tipo societário. Compare limitada e S.A. pela tabela acima e pelo plano de captação dos próximos dois anos.
  3. Redija o contrato social sob medida. Inclua administração, quóruns para decisões relevantes, regras de cessão de quotas, saída e falecimento de sócio. Declare o uso de modelo de negócio inovador para fins do Marco Legal, descrevendo-o de forma concreta.
  4. Registre e obtenha o CNPJ. Faça o registro na Junta Comercial, as inscrições fiscais e as licenças da atividade. Escolha o regime tributário com o contador.
  5. Assine o acordo de fundadores. Vesting com cliff, regras de good leaver e bad leaver, não concorrência, confidencialidade e solução de impasses. Comece por Acordo de sócios antes do primeiro conflito e Vesting e cliff.
  6. Busque e deposite a marca. Faça a busca de anterioridade no INPI antes de investir em identidade visual e deposite o pedido nas classes certas. Veja Por que registrar a marca antes de crescer.
  7. Traga o código para dentro da empresa. Assine termos de cessão com cada fundador sobre o que criaram antes e depois da abertura e contratos com cessão de direitos para freelancers e agências; veja Freelancers e desenvolvedores: a quem pertence o que eles criam. O texto Software tem registro? explica o que proteger.
  8. Organize os primeiros contratos. Termos de uso, contrato com clientes, contrato com prestadores e acordo de confidencialidade para parceiros e potenciais investidores.
  9. Cumpra o básico da LGPD. Mapeie os dados pessoais tratados, publique a política de privacidade e defina quem responde pelo tema. O artigo LGPD em pequenas empresas: por onde começar mostra o primeiro passo.

Erros comuns

  • Usar o contrato social de modelo. Ele não trata de saída de sócio, quóruns nem entrada de investidor. Gaste tempo nessas cláusulas na abertura, quando todos estão de acordo.
  • Dividir em partes iguais sem vesting. Quem sai cedo leva a mesma fatia de quem fica. O vesting liga a participação ao tempo e à dedicação.
  • Deixar a marca para depois. Outra empresa pode depositar o nome antes. Busque e deposite antes de lançar.
  • Não ceder o código à empresa. Sem cessão escrita, a titularidade do que fundadores e freelancers criaram pode ficar em discussão. Formalize desde o primeiro commit.
  • Copiar termos de uso de outro site. Textos copiados não refletem o seu produto e podem conter promessas que você não cumpre. Escreva com base no seu fluxo real.
  • Achar que LGPD é só para empresa grande. A lei vale para quem trata dados pessoais, e investidores perguntam sobre isso na due diligence. Comece pelo mapeamento.

Checklist

Perguntas frequentes

Qual o melhor tipo de empresa para startup? Não há um tipo único. A limitada costuma ser mais simples e barata nas fases iniciais. A sociedade anônima fechada tende a fazer sentido em rodadas institucionais ou com planos de incentivo amplos. O que mais pesa é ter um contrato social preparado para a entrada de investidores.

Startup pode ser MEI? O MEI é pensado para o empreendedor individual com faturamento reduzido e não comporta sócios. Para uma startup com mais de um fundador, investidores ou plano de crescimento, a limitada ou a S.A. costumam ser o caminho.

O que é o Inova Simples? É um regime especial simplificado previsto no Estatuto da Micro e Pequena Empresa para iniciativas que se autodeclaram empresas de inovação. O nome empresarial leva a expressão "Inova Simples (I.S.)", e, pelas normas do INPI, essas empresas podem pedir trâmite prioritário para pedidos de patente e de marca.

Preciso fazer acordo de sócios se somos só dois fundadores? Sim. Com dois sócios em partes iguais, o risco de impasse é ainda maior. O acordo define como decidir, como sair e o que acontece com a participação de quem deixa a empresa.

Quando registrar a marca da startup? Antes do lançamento e, de preferência, antes de investir em identidade visual. A busca prévia no INPI evita escolher um nome que não poderá ser registrado.

Próximo passo

Para ver em poucos minutos onde estão os pontos de atenção da sua empresa, faça o Diagnóstico de Risco Jurídico. Se a startup está nascendo ou o contrato social ainda é o de modelo, a Sociedade em Ordem organiza contrato social e acordo de sócios com prazo e escopo definidos. Mais sobre o tema na área de Jurídico para startups.

Solução Estratégica relacionada

Sociedade em Ordem

Leitura do contrato social e do acordo de sócios, com plano de ação.

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Fontes

  • Lei Complementar 182/2021 (texto publicado no DOU de 2/6/2021, consultado na base de legislação da Câmara dos Deputados): art. 4º, § 1º (enquadramento como startup); art. 16 (alterações nos arts. 143 e 294 da Lei 6.404/1976); art. 17 (alterações no art. 65-A da LC 123/2006, Inova Simples).
  • Lei 6.404/1976, arts. 80, I (número mínimo de acionistas), 143 e 168, § 3º (opções de compra no capital autorizado); Código Civil, art. 1.052, § 1º (limitada unipessoal).
  • INPI, Portaria INPI/PR nº 27/2025 (trâmite prioritário de marcas, inclusive para empresas Inova Simples) e página institucional do Inova Simples (exame prioritário de patentes).

Conteúdo informativo. Não substitui consulta a um advogado.